Tuesday, March 08, 2005

Cartografia Sentimental

CARTOGRAFIA SENTIMENTAL
Suely Rolnik

"Encontrar é achar, é capturar, é roubar, mas não há método para achar, só uma longa preparação. Roubar é o contrário de plagiar, copiar, imitar ou fazer como. A captura é sempre uma dupla-captura, o roubo, um duplo-roubo, e é isto o que faz não algo de mútuo, mas um bloco assimétrico, uma evolução a-paralela, núpcias sempre 'fora' e 'entre'."
- Gilles Deleuze e Claire Parnet, Dialogues

Cartografia: uma definição provisória

Para os geógrafos, a cartografia-diferentemente do mapa, representação de um todo estático-é um desenho que acompanha e se faz ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem.

Paisagens psicossociais também são cartografáveis. A cartografia, nesse caso, acompanha e se faz ao mesmo tempo que o desmanchamento de certos mundos-sua perda de sentido-e a formação de outros: mundos que se criam para expressar afetos contemporâneos, em relação aos quais os universos vigentes tornaram-se obsoletos.

Sendo tarefa do cartógrafo dar língua para afetos que pedem passagem, dele se espera basicamente que esteja mergulhado nas intensidades de seu tempo e que, atento às linguagens que encontra, devore as que lhe parecerem elementos possíveis para a composição das cartografias que se fazem necessárias.

O cartógrafo é antes de tudo um antropófago.

O cartógrafo

A prática de um cartógrafo diz respeito, fundamentalmente, às estratégias das formações do desejo no campo social. E pouco importa que setores da vida social ele toma como objeto. O que importa é que ele esteja atento às estratégias do desejo em qualquer fenômeno da existência humana que se propõe perscrutar: desde os movimentos sociais, formalizados ou não, as mutações da sensibilidade coletiva, a violência, a delinqüência. . . até os fantasmas inconscientes e os quadros clínicos de indivíduos, grupos e massas, institucionalizados ou não.

Do mesmo modo, pouco importam as referências teóricas do cartógrafo. O que importa é que, para ele, teoria é sempre cartografia-e, sendo assim, ela se faz juntamente com as paisagens cuja formação ele acompanha (inclusive a teoria aqui apresentada, naturalmente). Para isso, o cartógrafo absorve matérias de qualquer procedência. Não tem o menor racismo de freqüência, linguagem ou estilo. Tudo o que der língua para os movimentos do desejo, tudo o que servir para cunhar matéria de expressão e criar sentido, para ele é bem-vindo. Todas as entradas são boas, desde que as saídas sejam múltiplas. Por isso o cartógrafo serve-se de fontes as mais variadas, incluindo fontes não só escritas e nem só teóricas. Seus operadores conceituais podem surgir tanto de um filme quanto de uma conversa ou de um tratado de filosofia. O cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorado. Está sempre buscando elementos/alimentos para compor suas cartografias. Este é o critério de suas escolhas: descobrir que matérias de expressão, misturadas a quais outras, que composições de linguagem favorecem a passagem das intensidades que percorrem seu corpo no encontro com os corpos que pretende entender. Aliás, "entender", para o cartógrafo, não tem nada a ver com explicar e muito menos com revelar. Para ele não há nada em cima-céus da transcendência-, nem embaixo-brumas da essência. O que há em cima, embaixo e por todos os lados são intensidades buscando expressão. E o que ele quer é mergulhar na geografia dos afetos e, ao mesmo tempo, inventar pontes para fazer sua travessia: pontes de linguagem.

Vê-se que a linguagem, para o cartógrafo, não é um veículo de mensagens-e-salvação. Ela é, em si mesma, criação de mundos. Tapete voador. . . Veículo que promove a transição para novos mundos; novas formas de história. Podemos até dizer que na prática do cartógrafo integram-se história e geografia.

Isso nos permite fazer mais duas observações: o problema, para o cartógrafo, não é o do falso-ou-verdadeiro, nem o do teórico-ou-empírico, mas sim o do vitalizante-ou-destrutivo, ativo-ou-reativo. O que ele quer é participar, embarcar na constituição de territórios existenciais, constituição de realidade. Implicitamente, é óbvio que, pelo menos em seus momentos mais felizes, ele não teme o movimento. Deixa seu corpo vibrar todas as freqüências possíveis e fica inventando posições a partir das quais essas vibrações encontrem sons, canais de passagem, carona para a existencialização. Ele aceita a vida e se entrega. De corpo-e-língua.

Restaria saber quais são os procedimentos do cartógrafo. Ora, estes tampouco importam, pois ele sabe que deve "inventá-los" em função daquilo que pede o contexto em que se encontra. Por isso ele não segue nenhuma espécie de protocolo normalizado.

O que define, portanto, o perfil do cartógrafo é exclusivamente um tipo de sensibilidade, que ele se propõe fazer prevalecer, na medida do possível, em seu trabalho. O que ele quer é se colocar, sempre que possível, na adjacência das mutações das cartografias, posição que lhe permite acolher o caráter finito ilimitado do processo de produção de realidade que é o desejo. Para que isso seja possível, ele se utiliza de um "composto híbrido", feito do seu olho, é claro, mas também, e simultaneamente, de seu corpo vibrátil, pois o que quer é apreender o movimento que surge da tensão fecunda entre fluxo e representação: fluxo de intensidades escapando do plano de organização de territórios, desorientando suas cartografias, desestabilizando suas representações e, por sua vez, representações estacando o fluxo, canalizando as intensidades, dando-lhes sentido. É que o cartógrafo sabe que não tem jeito: esse desafio permanente é o próprio motor de criação de sentido. Desafio necessário-e, de qualquer modo, insuperável-da coexistência vigilante entre macro e micropolítica, complementares e indissociáveis na produção de realidade psicossocial. Ele sabe que inúmeras são as estratégias dessa coexistência-pacífica apenas em momentos breves e fugazes de criação de sentido; assim como inúmeros são os mundos que cada uma engendra. É basicamente isso o que lhes interessa.

Já que não é possível definir seu método (nem no sentido de referência teórica, nem no de procedimento técnico) mas, apenas, sua sensibilidade, podemos nos indagar: que espécie de equipamento leva o cartógrafo, quando sai a campo?

Manual do cartógrafo

É muito simples o que o cartógrafo leva no bolso: um critério, um princípio, uma regra e um breve roteiro de preocupações-este, cada cartógrafo vai definindo e redefinindo para si, constantemente. O critério de avaliação do cartógrafo você já conhece: é o do grau de intimidade que cada um se permite, a cada momento, com o caráter de finito ilimitado que o desejo imprime na condição humana desejante e seus medos. É o do valor que se dá para cada um dos movimentos do desejo. Em outras palavras, o critério do cartógrafo é, fundamentalmente, o grau de abertura para a vida que cada um se permite a cada momento. Seu critério tem como pressuposto seu princípio.

O princípio do cartógrafo é extramoral: a expansão da vida é seu parâmetro básico e exclusivo, e nunca uma cartografia qualquer, tomada como mapa. O que lhe interessa nas situações com as quais lida é o quanto a vida está encontrando canais de efetuação. Pode-se até dizer que seu princípio é um antiprincípio: um princípio que o obriga a estar sempre mudando de princípios. É que tanto seu critério quanto seu princípio são vitais e não morais.

E sua regra? Ele só tem uma: é uma espécie de "regra de ouro". Ela dá elasticidade a seu critério e a seu princípio: o cartógrafo sabe que é sempre em nome da vida, e de sua defesa, que se inventam estratégias, por mais estapafúrdias. Ele nunca esquece que há um limite do quanto se suporta, a cada momento, a intimidade com o finito ilimitado, base de seu critério: um limite de tolerância para a desorientação e a reorientação dos afetos, um "limiar de desterritorialização". Ele sempre avalia o quanto as defesas que estão sendo usadas servem ou não para proteger a vida. Poderíamos chamar esse seu instrumento de avaliação de "limiar de desencantamento possível", na medida em que, afinal, trata-se, aqui, de avaliar o quanto se suporta, em cada situação, o desencantamento das máscaras que estão nos constituindo, sua perda de sentido, nossa desilusão. O quanto se suporta o desencantamento, de modo a liberar os afetos recém-surgidos para investir em outras matérias de expressão e, com isso, permitir que se criem novas máscaras, novos sentidos. Ou, ao contrário, o quanto, por não se suportar esse processo, ele está sendo impedido. É claro que esse tipo de avaliação nada tem a ver com cálculos matemáticos, padrões ou medidas, mas com aquilo que o corpo vibrátil capta no ar: uma espécie de feeling que varia inteiramente em função da singularidade de cada situação, inclusive do limite de tolerância do próprio corpo vibrátil que está avaliando, em relação à situação que está sendo avaliada. A regra do cartógrafo então é muito simples: é só nunca esquecer de considerar esse "limiar". Regra de prudência. Regra de delicadeza para com a vida. Regra que agiliza mas não atenua seu princípio: essa sua regra permite discriminar os graus de perigo e de potência, funcionando como alerta nos momentos necessários. É que, a partir de um certo limite-que o corpo vibrátil reconhece muito bem-a reatividade das forças deixa de ser reconversível em atividade e começa a agir no sentido da pura destruição de si mesmo e/ou do outro: quando isso acontece, o cartógrafo, em nome da vida, pode e deve ser absolutamente impiedoso.

De posse dessas informações, podemos tentar definir melhor a prática do cartógrafo. Afirmávamos que ela diz respeito, fundamentalmente, às estratégias das formações do desejo no campo social. Agora, podemos dizer que ela é, em si mesma, um espaço de exercício ativo de tais estratégias. Espaço de emergência de intensidades sem nome; espaço de incubação de novas sensibilidades e de novas línguas ao longo do tempo. A análise do desejo, desta perspectiva, diz respeito, em última instância, à escolha de como viver, à escolha dos critérios com os quais o social se inventa, o real social. Em outras palavras, ela diz respeito à escolha de novos mundos, sociedades novas. A prática do cartógrafo é, aqui, imediatamente política.

Extraído de Suely Rolnik, Cartografia sentimental, transformações contemporâneas do desejo, São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1989, p.15-16; 66-72.

Mapas Para o Fora

MAPAS PARA O FORA: BUREAU D'ETUDES OU A VINGANÇA DO CONCEITO
Brian Holmes

O fechamento do espaço da galeria é um gesto conceitual clássico.Vejam esta proposta de Robert Barry: "Minha exposição na galeria Art & Project em Amsterdam em dezembro de 1969 vai durar duas semanas. Pedi a eles para trancar a porta e pregar meu aviso nela, onde se lê: 'Para a exposição a galeria estará fechada' " (1). A arte conceitual pode ser definida não simplesmente como a recusa do objeto comercializado e do especializado sistema da arte, mas como uma ativa sinalização apontando para o mundo exterior, concebido como um campo expandido para práticas experimentais de intimidade, expressão e colaboração - sem dúvida, para a transformação da realidade social (2).

Trinta e dois anos depois, em outubro-dezembro de 2001, o grupo francês Bureau d'Etudes reiterou o gesto, lacrando o espaço da exposição do Le Spot, um edifício industrial transformado na cidade portuária de Le Havre. Em vez de um simples anúncio, eles confrontaram o visitante com um livro, Juridic Park (Parque Jurídico), que depois de um exame mais atento demonstrava ser um detalhado conjunto de mapas para o "subsolo legal" da cidade. Mas estes mapas, como os projetos cartográficos mais recentes, não abrangem simplesmente o lado de fora de um dos subsistemas especializados da modernidade. Mais exatamente, detalham os proliferantes impedimentos de uma sociedade totalmente administrada, onde quase todo centímetro quadrado de terreno está estritamente codificado para usos proprietários exclusivos. O nome do grupo, Bureau d'Etudes, denota uma consultoria de experts, um escritório de estudos para pesquisas técnicas. Eles têm uma compreensão intensamente precisa do mundo, transmitida com lampejos de humor negro. Mas seu trabalho, em suas dimensões mais amplas, é também a fundação, ou talvez o trampolim, para uma utopia antagonista.

Primórdios

Em 1998, com a exposição Archives du Capitalisme, o Bureau d'Etudes começou a produzir mapas organizacionais mostrando as relações de propriedade entre fundos financeiros, agências governamentais, bancos e empresas industriais. Várias destas cartas gráficas, ou "organogramas", foram desenvolvidas como parte de uma instalação incluindo fotografias em preto e branco de cabeças, apoiadas em estacas de madeira (presumivelmente CEOs), assim como uma maquete de um prédio proposto para um novo parlamento, para articular os direitos de voto daqueles com poder real na sociedade de hoje. A exposição era um projeto autônomo em um espaço gerido por artistas, na época chamado de "Faubourg", na cidade de Estrasburgo. Para uma mostra subsequente intitulada Le Capital, montada por Nicolas Borriaud na cidade de Sète, um organograma detalhando as relações entre o estado francês e uma panóplia de grandes corporações transnacionais foi ampliada para o tamanho de parede. Quadrados e retângulos de variadas proporções, cada um identificado com um nome (Societé Generale, Dredsner Bank, Mitsubishi, Pirelli, etc.), estavam conectados com um labirinto de linhas elaboradamente traçadas, impressas em negro contra um fundo branco. O resultado era algo como uma all-over painting (3) para os anos 1990, obcecados por computadores e finanças: uma estética da informação. Em outras palavras, um dos históricos pontos falhos do que tem sido chamado de “arte conceitual”.

Cedo ou tarde, artistas trabalhando na análise e transformação da realidade social devem encarar a pergunta óbvia: Como escapar dos formatos, públicos e métodos de permuta que são oferecidos pelo sistema galeria-revista-museu? A resposta é um processo gradual, um experimento social e psíquico. Convidado para uma exposição coletiva para a qual, como de costume, não seriam pagos, o Bureau d'Etudes respondeu criando uma "Zone de Gratuité", Terra Livre, onde valores e todos os tipos de sobras poderiam ser depositados e levados sem a intermediação do dinheiro. O experimento da zona livre foi tentado numa galeria/espaço residencial em Paris, onde a curiosidade teórica e a perspectiva mais prática do "algo por nada" atraiu um público diversificado. Expandindo a questão do real status social do artista numa era de trabalho casual e intelectualidade de massas, o Bureau d'Etudes trabalhou com Alejandra Riera, Andreas Fohr e Jorge Alyskewycz para lançar o "Syndicat Potentiel" ou "Sindicato Potencial", uma associação proto-política voltada para produtores culturais e intelectuais cujas aspirações os levam para além de todas as categorias profissionais. As idéias-chave aqui vieram das tradições anarquistas francesas, mas também de teorias da economia da dádiva, desenvolvidas pelo antropólogo Marcel Mauss e retrabalhadas pelos críticos sociais franceses depois das greves de 1995, numa era de desemprego estrutural (4). Entre os primeiros co-operadores estavam o grupo Plus tot te laat, de Bruxelas – artistas desempregados que ocuparam uma agência de desemprego, transformando-a em um centro de expressão e reflexão sobre os significados do trabalho na sociedade contemporânea. Tais reflexões por sua vez levaram a uma crescente proximidade com os movimentos squatters, fosse na França, na Itália ou na Alemanha. Destes primórdios, o Syndicat Potentiel cresceu até virar uma estrutura sem restrições para colaborações fraternais e em rede, com o objetivo de produzir contra-conhecimento autônomo, orientado na direção de uma economia de gratuité totale (na qual serviços básicos tais como moradia, água, eletricidade, acesso à comunicação, etc., seriam "totalmente gratuitos") (5). O projeto continua até hoje, dando seu nome ao espaço auto-gerido em Estrasburgo, onde o grupo artístico produziu suas primeiras propostas.

Oportunidades

É à luz do quase invisível pano de fundo do Syndicat Potentiel e de um projeto paralelo,
"Université Tangente", que os recentes projetos cartográficos merecem ser entendidos. Eles surgiram como uma oportunidade inesperada, longamente desejada. A ruptura do consenso trazida pelos Dias de Ação Global, começando em maio de 1998, serviram para estimular o mais amplo movimento anti-globalização, através de usos inovadores da internet, assim como um sistema de distribuição mundial administrado desde baixo. Um tipo de conceitualismo autônomo, faça-você-mesmo, começou a surgir, por meio do qual "atitudes viram formas": uma idéia ou expressão se originando em uma localidade (por exemplo, "Nossa Resistência é tão Globalizada quanto o Capital") se torna uma performance política geograficamente distribuída (as "Festas de Rua Globais" contra as reuniões anuais do G-8) (6). Em perfeito acordo com as famosas máximas de Lawrence Weiner, a obra poderia ser executada pelos primeiros autores das idéias, concretizadas por outros, ou não realizadas de modo nenhum – algo como uma prova de troca planetária, onde a "arte" é "totalmente livre". Ao mesmo tempo em que estes impulsos de protesto surgiam em larga escala – descrevendo as estruturas de poder da globalização com suas bases, tal como acontecia – a ascensão da sociedade da informação e o ímpeto desregulador do neoliberalismo tornaram possível que grupos relativamente pequenos, de grande mobilidade, se apropriassem e usassem tecnologias avançadas, inspirando visões extremamente sofisticadas do mundo. Contudo, estas novas possibilidades para a aplicação de pesquisa especializada não eram imediatamente visíveis na França, devido a barreiras lingüísticas, uma cena artística lamentavelmente conservadora e discursos críticos dominados pelos envelhecidos professores comunistas da Attac. Foi, talvez, tão tardiamente quanto em dezembro de 2001, com os massivos protestos na conferência de cúpula da EU na vizinha Bruxelas, que o potencial para uma mais ativa distribuição dos mapas antagonistas ficou claro. Projetos institucionais subseqüentes, na La Box na cidade de Bourges, depois na Kust-werk em Berlim, serviram como ocasiões para a produção inicial de cartas gráficas em grandes séries impressas, para ampla distribuição. Estas ajudaram a elaborar o conhecimento e os conjuntos de habilidades necessitadas para duas produções colaborativas autônomas, ambas com milhares de cópias impressas para eventos ativistas específicos: Refuse the Biopolice ("Recuse a Biopolícia"), para o Campo Sem Fronteiras, em Estrasburgo, em julho de 2002, e o European Norms of World-Production ("Normas Européias de Produção Mundial"), para os encontros do Fórum Social Europeu em Florença em novembro do mesmo ano. Este acesso atrasado aos movimentos anti-globalização significou que os mapas antagonistas, com sua extraordinária complexidade de análise, chegaram no momento certo – depois que os avanços iniciais do primeiro período de dissidência encontrou sua forçada pacificação e neutralização parcial, como uma conseqüência da violência desencadeada pelo tumulto da polícia em Gênova. Ambos os mapas apresentam uma abundância de informação, abalando certezas subjetivas e pedindo reflexão, pedindo um novo olhar sobre o mundo em que realmente vivemos. São visões sinópticas da versão contemporânea, transnacional, do capitalismo estatal, construído como está "pelo conluio entre indivíduos específicos, corporações transnacionais, governos, agências internacionais e grupos da 'sociedade civil'" (7). Elas tornam visíveis os padrões internacionais que os têm estruturado num espaço totalizante assustadoramente abstrato, quase totalmente fora do alcance dos contra-poderes democráticos anteriormente exercidos dentro da jurisdição dos estados nacionais, e, sem dúvida, quase totalmente invisíveis - pelo menos até recentemente, quando as possibilidades comunicacionais permitiram que uma certa medida de "mapeamento cognitivo" fosse realizada pelos cidadãos (8). Refuse the Biopolice, focado em sistemas de controle contemporâneos, também oferece leituras mais detalhadas da forma com que as tecnologias de vigilância e encarceramento são implementadas para o lucro de empresas privadas, em colaboração com agências nacionais e internacionais. Quanto ao mapa do European Norms, ele cartografa especificamente a vasta estrutura administrativa que surgiu em torno da burocrática Comissão Européia, cujos diretórios, enervados pelas demandas de lobbies corporativos, produzem "os padrões industriais, modelos territoriais, diretrizes ideológicas e critérios de verdade" que ajudam a estruturar a produção de um mundo-vida (9) - uma forma em concreto-e-aço de integração continental, competindo com seu espelho distorcido na América do Norte. European Norms também apresenta as entrelaçadas estruturas da pretensa "sociedade civil organizada", que serve para legitimar o status quo; mas ao mesmo tempo, com os diagramas mais simples de sua misteriosa, biomórfica capa frontal, dedicada aos "indícios de autonomia", ele apresenta os padrões e redes de potencialidades para a resistência mundial.

Tais mapas aspiram ser ferramentas cognitivas, distribuindo tão amplamente quanto possível o tipo de informação especializada que estava anteriormente restringida a publicações técnicas. Mas, em outro nível, eles pretendem funcionar como choques subjetivos, potenciais de energia, inspirando as ações de protesto à medida em que são passados de mão em mão, aprofundando a determinação de resistir, sejam eles utilizados em conjunto ou individualmente. Neste sentido, é a conclusão mesma de sua disciplina intelectual, o rigor de seu esforço conceitual de retratar um mundo totalmente administrado, que faz deles mapas para o fora, sinais apontando para um território que ainda não pode ser totalmente determinado, e que nunca será "representado" nos modos tradicionais. Uma tal indicação se lê na expressão "Solidariedade com extraterrestres", inscrita em um balão quase vazio no canto de baixo da parte esquerda da capa do European Norms.

Perspectivas

A aceleração dos últimos poucos anos tem sido vertiginosa, para todo mundo. Hoje, o conhecimento acumulado de projetos recentes e os começos de uma genuína colaboração em rede tornam possível imaginar projetos de mapeamento mais estrategicamente focados. Os três estudos apresentados na mostra de Viena (10) - Info-guerra, Bio-guerra e Guerra Psíquica - respondem a uma necessidade de compreender as estratégias francamente militares de legitimação e controle da população que surgiram desde 1989, com o fim da estase bipolar baseada na loucura da mútua "aniquilação total" (11). Similarmente, mapas mais circunscritos e precisos do capitalismo de estado transnacional podem agora ser imaginados, sintonizados de modo mais próximo com as possibilidades dos movimentos de protesto e ação direta. Uma outra perspectiva é a possível invenção de uma base de dados computadorizada, com uma interface visual permitindo ao usuário situar posições de poder específicas dentro de um vínculo de relações de apoio e de oposição. Muito ainda está por ser feito.

Sob este ângulo, o velho dilema da relação com as estruturas de museu, revista e galeria se reduz à insignificância. Para o underground da mídia tática na Europa, mostras de arte oferecem prazos úteis para pesquisas, uma chance de compartilhar idéias e críticas, algum dinheiro para produções, na melhor das circunstâncias - e, na pior, uma distração arriscada. A vingança do conceito teve de finalmente criar circuitos paralelos e alternativos de experimentação, produção, distribuição, uso e interpretação. Sem dúvida, estes circuitos dificilmente se consolidam - mas a melhor forma de fazê-lo é manter outras urgências, que não podem ser tratadas dentro de nenhum dos subsistemas especializados. Talvez uma tal urgência possa ser expressada como uma pergunta, para artistas e ativistas que devem agora se dedicar a crescentes níveis de confrontação no mundo. A pergunta segue assim: Ainda é possível sublimar conflitos antagonísticos em pacificadores rituais de ponderado debate agonístico? (12) Ou em outras palavras: Podem relações propriamente políticas serem resgatadas de um mundo totalmente administrado?

Notas

1. Veja Robert Barry, "Gallery Closing", Amsterdam, Art & Project, 17-31 de dezembro, Bulletin # 17, em: Ursula Meyer, ed. Conceptual Art (New York: Dutton, 1972), p. 41.

2. Agradeço a Andreas Broeckman por apontar o meu browser para um texto de Howard Slater que apóia amplamente esta definição. Veja a parte introdutória de "The Spoiled Ideals of Lost Situations - Some Notes on Political Conceptual Art", em: www.infopool.org.uk .

3. All-over painting é um termo comumente utlizado para um tipo de pintura abstrata que não possui uma estrutura tradicional de composição, foco de visão dominante ou qualquer indicação de que lado fica para cima ou para baixo. Um exemplo seriam as pinturas de gotas do expressionismo abstrato de Jackson Pollock. (Nota do Tradutor)

4. o jornal M.A.U.S.S. ("Mouvement anti-utilitariste dans les sciences sociales") oferece uma visão de algumas idéias de fundo que informam os debates sobre valor na França depois de 1995.

5. Veja o site do Syndicat Potentiel (http://syndicatpotentiel.free.fr) para uma visão geral bem mais precisa, com textos sobre gratuité totale, entre muitos outros temas.

6. Aqueles que desejarem reconstituir a história dos Dias de Ação Global devem consultar os sites da Ação Global dos Povos (www.agp.org) e do Reclaim the Streets de Londres (www.reclaimthestreets.net), entre outros.

7. A citação, do Refuse the Biopolice, se aplica a todos os mapas recentes.

8. Refiro-me à famosa expressão de Frederic Jameson, que em 1984 clamou por "uma estética de mapeamento cognitivo" para resolver "a incapacidade de nossas mentes, pelo menos no presente, de mapear a grande rede de comunicação global, multinacional e descentralizada na qual nos encontramos enredados como sujeitos individuais". Veja seu ensaio "Pós-modernismo, ou a Lógica Cultural do Capitalismo Tardio", reimpresso no livro com o mesmo nome.

9. Mundo-vida (life-world), tradução do alemão Lebenswelt da filosofia de Husserl, significa o mundo que é fenomenologicamente constituído na intersubjetividade e que se abre à história e à linguagem. Holmes aqui se refere a uma instância de valores que, na atual configuração pós-fordista, faz com que a própria produção subjetiva do "mundo-vida" seja determinada pelos interesses do neoliberalismo. (N. do Trad.)

10. Este texto tinha sido produzido para o catálogo da exposição Geography - and the Politics of Mobility na Generali Foundation de Viena, com curadoria de Ursula Biemann, aberta em 16 de janeiro de 2003. (N. do Trad.)

11. Quem tiver dúvidas quanto à mudança histórica na estratégia militar depois de 1989 pode consultar os livros de John Arquilla e David Ronfeldt, tais como Networks and Netwars: The Future of Terror, Crime and Militancy, disponível em PDF em www.rand.org/publications .

12. A distinção antagonístico/agonístico vem de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau, em Hegemony and Socialist Strategy; aqueles que ficarem entediados em ler livros densos podem escutar o vídeo da palestra de Mouffe na recente conferência Dark Markets, disponível em http://darkmarkets.t0.or.at/video/mouffe.ram.

Tradução de Ricardo Rosas

Monday, March 07, 2005

submap

Performance dos pobres – ocupações e desocupações...

O mapa da cidade sofre estranhos tremores e se desconfigura lentamente, conforme se dão os êxodos urbanos.


Migrações internas, populações em deslocamento.


Uma massa miserável adentrando inusitados territórios: disfunções da cidade.

Espaços ociosos cheios de dívidas - antigas dádivas.

A pobreza tende a nos mostrar o sentido radical do limite: ponto de transmutação ou supressão.

Os despejados do mundo formam pequenos bandos e se atrevem a habitar.

São bandos-quadrilhas-de-bandidos-invasores quando pegos pela Lei; até poderem provar que são bandos-Movimento: CNPJ, Financiadores, Advogados...

Mapa trêmulo: insuspeitáveis variações nos territórios comuns da cidade burocrática.


Fabiane Borges